
Sempre fui mulher de um homem só.
Não sei é minha natureza intensa que me faz fiel ou se o fato de ser natural e
visceralmente fiel me faz intensa em minhas relações.
A realidade é: não sei conjugar dois amores e até hoje, aos 41, luto para integrar tudo (
afeto, sensualidade, sexo, amizade,
cumplicidade e
fetiches) num homem só.
Canso de ouvir: "Sexo e amor nem sempre andam juntos; você não pode querer tudo num ser só, há homem para cada coisa".
Blá,
blá,
blá. Mas como sou uma das pessoas mais teimosas que conheço, insisto.
Sexo, amor e amizade num só, sim.
E posso até ter ( e tenho) amigos e
transas eventuais sem amor; mas ter um amor, uma relação
efetiva, que não complemente os outros lados, nunca. Pois sou fiel. E sofreria e faria o outro sofrer. Por isso não tenho compromisso oficial hoje. Ou é tudo junto num só ou fico oficialmente sozinha. Estar por estar porque o cara 'é legal', nem pensar. Estar com alguém só porque ele curte os mesmos filmes que eu; ou só porque é um namorado
bonzinho; ou só porque seria um bom pai; ou só porque me adora; ou só porque é uma
transa ótima, mas não existe mais nenhuma afinidade; ou só porque é super inteligente, também não. Ou é meu amor inteiro e estou inteira com ele, ou não estou. Esta coisa de dividir carência não é comigo. E não temo a solidão. Sou feliz mesmo sem namorado ou marido. Sigo, portanto, buscando o que desejo como relação
efetiva e o que sei que existe.
Já vivi situações de profundo conflito em minha vida amorosa, é claro.
Quando estava para me casar pela primeira vez,
novinha de tudo, vi-me apaixonada, encantada por um homem dez
anos mais velho que eu que trabalhava na mesma empresa onde eu tinha sido estagiária e, depois, Psicóloga. Por conta da minha natureza canina, resolvi me abrir com meu quase-marido. Sofri, tive medo de magoá-lo, mas precisava dizer o que se passava. E ele, não à toa, o grande amor da minha vida até aqui, simplesmente me olhou e disse: - Vá lá e experimente. Eu amo você e estarei aqui, esperando tua volta e tua decisão.
E fui. Absurdamente dividida, cheia de culpas, mas fui. Não estava traindo meu amor, nem a mim, tampouco ao terceiro. Estava vivendo do modo como acredito: limpo! - mesmo que, por isso mesmo, potencialmente conflituoso.
Fui, experimentei e voltei, inteira e mais exclusiva que nunca de um, meu amor, que se tornou meu marido pouco tempo depois.
E os dois se conheceram, e se tornaram quase-amigos.
E quando, anos depois, decidi largar tudo e mudar de país, os dois, soube depois pelo terceiro, sentaram-se num meio-fio em frente à casa eu tinha morado com o primeiro, se se
consoloram, mutuamente.
Muito mais tarde, já depois do segundo casamento, tendo escolhido transitar por um universo
afetivo-erótico muito atípico e marginal, vi-me novamente em conflito.
Acabei apaixonando-me por um ser que não transitava no tal universo. Sempre com sofrimento, conversei como ser que
orbitava aquele universo. E falei com o extra-universo também. Ambos, para minha surpresa, entenderam tudo e me propuseram que eu ficasse com os dois, cada um num universo, caso assim eu desejasse.
Tentei ser moderna, tentei ser liberal, mas não dei conta. Menos de duas semanas depois, escolhi um. E foi o extra-universo que, mesmo depois do nosso rompimento como homem-mulher, continua meu amigo, até hoje.
Aos 41 anos, sei bem que não consigo
compartimentar meu
afeto e minha sexualidade num relacionamento. Não dou conta destes universos paralelos, se a relação é realmente
efetiva. Aventuras, eventos pontuais, tudo bem, mas namorar com um e
transar com outro, nunca!
Transar mal com o namorado, muito menos. Se amo e desejo, amo e desejo um só.
Mas, no futebol, quem diria, isso se deu de modo distinto.
Tenho dois amores!!!
Sou
Paranista.
Sou
Corinthiana.
O fato é que assumi meu segundo amor, sem medos nem pudores, depois de muito conflito, recentemente, um ano após a morte de meu pai e aqui registrei este momento.
http://dubavardage.blogspot.com/2008/01/meu-pai-rivelino-e-o-glorioso-sport.htmlE, desde então, Paraná e
Corinthians não tinham se cruzado.
Mas, infelizmente, isso acontecerá dentro de alguns minutos.
Justo hoje, quando eu deveria estar em
Curitiba.
Quando associei as duas datas, gelei.
- Claro, Mariana, que a gente vai ao jogo!!!!
- Mas, Tia..... Você vai ficar com a gente na torcida do Paraná,
né?
E a resposta que, até então, pareceria a mais natural e esperada não saiu.
Entrei em crise.
Quis torcer para
Corinthians.
E quis torcer para o Paraná.
E nem sabia mais qual camisa levaria na bagagem: a linda 8 do Basílio, edição comemorativa ao
título de 77; ou a elegante azul e vermelha, com a linda gralha-azul sobre o coração.
Mas e meus
sobrinhos e irmãos?
Como faria?
E se na torcida do Paraná, eu soltasse um grito incontrolável de
alegria num
gol do
Timão?
E se o contrário também acontecesse?
Sentia, de um modo ou de outro que seria trucidada, seria o meu fim, fosse pela Gaviões, fosse pela Fúria.
Fiquei angustiada por dias.
Felizmente, o moço que normalmente cuida de meus cães teve de viajar.
E eu fiquei aqui.
Daqui a pouco, ouvirei, pela radio, o jogo.
Não sei como será minha
reação.
Agora, sim, vou ver se consigo mesmo ser
bígama no futebol.
Ou se minha natureza vai me trair e me fazer escolher um.
Só
hoje poderei saber.
Timão na
segundona, não pode perder.
Paraná está mal; precisa ganhar.
E estou dividida.
O jogo vai começar.
Bóra!